Êxodo

O mundo está desfeito, não há mais para onde ir. Sua família, sua casa, seu emprego, seu carro, todos os seus pertences… e principalmente “Seu Eu”. Não há lugar para mais nada na Terra, nem a terra está como era, a água, os animais, as plantas… Não há onde se abrigar.

Surge um veículo para a condução, para o Êxodo, mas sempre que você ouviu falar disso pensou que fosse alguma lenda, ou algo na história que não se lembra mais de qual civilização ou qual época.

Mas é uma possibilidade, talvez a única, diferente, há de ser feito tudo diferente desta vez. Lembre-se um pouco do que alguém, algum dia disse sobre o desapego… algum monge talvez, ou algum livro de auto-ajuda.

Surge uma pétala, uma enorme pétala flutuando a meia altura, suave, convidando para a viagem.

Algumas pessoas já embarcaram, você olha, pensa o que precisaria para isso, volta em sua memória e ainda se agarra até as últimas coisas que carrega.

Algumas roupas, seus documentos, aqueles que dizem quem você é, algum dinheiro, um único par de sapatos, uma foto na carteira, sem comida ou água, ou algum lugar onde possa comprar algum.

Pensa novamente: Indo para onde? Titubeia, lembra dos seus, nem imagina onde estariam. Agora é só você.

Então lembra-se de Deus e questiona: Por que estou passando por isso? Cadê Deus? Olha para os céus, não vês, nem sol, nem lua, nem estrelas, nem aviões, nem chuva, nem pássaros. Vê o mesmo vazio que sente em seu peito… e quem dera fosse assim em sua mente… o vazio, mas não…

Olha para as pessoas e questiona o porquê embarcaram, olha ao redor outras tantas chegando… de todos os lugares.

Sobe um pé na pétala e a faz encostar no chão… Como pode? É enorme e só o peso de um de seus pés a faz abaixar… como é sensível!

Outras pessoas voltam e pensam quietas num canto… e tentam subir novamente… algumas ficam outras precisam voltar e se aquietar novamente. Vão deixando seus pertences, seus  sapatos, suas mochilas, seus documentos e só quando estão “leves” conseguem embarcar.

Então você chama uma pessoa que parece estar orientando algumas outras. Sente que já a conhece, mas é impossível se lembrar quem, ou de onde… mas pelo fato de sentir que já a conhece facilita as coisas, o contato. Vai até ela e pede ajuda.

Começa a explicar tudo, como se ninguém tivesse feito isso e como se suas razões fossem as mais importantes. Ela te ouve, mas não responde nada, não com palavras… mas você as ouve internamente e mais uma vez questiona: Você está falando dentro de mim? Ou sou eu mesmo?

Então você também vai para um canto se aquietar e continuar a ouvir, ouvir uma voz que não cessa.

Vai se desfazendo de suas coisas, seus pertences, sente-se nu e desidentificado, não sabe mais quem você é… e num esforço imenso de manter-se, recapitula sua vida inteira… tudo o que você sempre chamou de você… nossa como você queria ter “pulado” algumas lembranças, mas não houve jeito, elas vieram em sua mente e os sentimentos também…

Você chega novamente e coloca um pé para dentro da pétala e ela continua cedendo como antes, quase igual, então você não entende nada. Tentou se sentir mais leve, mas estava tudo a mesma coisa.

Apenas no olhar a pessoa com quem se comunicou anteriormente e todas as perguntas e respostas se estabeleceram… Novamente você vai para um cantinho e aquieta-se e todas as respostas chegam…

Para embarcar é preciso o desapego, desapego das coisas que você sempre chamou de suas, de suas posses, das pessoas com as quais conviveu, da imagem que você tem de você, de tudo o que sempre te fez pensar que é  alguém, mas para isso é preciso deixar… suas crenças, suas lembranças, seus sonhos, suas tristezas, suas dores, suas mágoas, seus rancores, seus ressentimentos, seus remorsos, suas culpas, sua raiva, seus medos, suas expectativas, suas dívidas, suas dúvidas, suas esperanças… ah… essa última precisa ser um pouco modificada, precisa ser traduzida por fé…

Quando isso acontece, ai então você consegue embarcar… muitos outros como você estão passando pelo mesmo processo e vocês se entreolham e se reconhecem uns nos outros.

Já não parece mais um veículo estranho indo para um local desconhecido. Então você vê o tempo se esgotando e algumas pessoas em seus cantos tentando lidar com seus Eus falidos, mas ainda agarram-se a eles.

O tempo é chegado e neste momento você vê algumas pessoas conhecidas do lado de fora e tenta gritar, mas elas não conseguem ouvi-lo.

A pétala parte e você precisa aceitar que alguns preferiram ficar, sem questionar se deveria ter feito o mesmo…

Solta a história e vai…

Para além do além…

Sophia Christou

5 Comentários

  1. Estrela said,

    🙂

    É lindo! Muito inspirado.

    beijo

  2. Astrid Annabelle said,

    Olá Sophia.
    Hoje quando recebi o email comunicando que deixou aquela linda poesia para mim na HE, eu estava justamente acabando de ver um vídeo, que recebi de uma amiga, sobre os golfinhos.
    Isso me fez entender a ligação que temos…e é forte!
    A história está postada no meu blog Navegante do Infinito.
    Sobre o seu texto acima só posso dizer que amei e que estou mesmo no processso de aliviar os pesos que carregamos por tanto tempo.
    Jesus convocou os pescadores dessa maneira…”Sigam-me!” Sem mais nada.
    Lindo lindo lindo.
    Amei seu blog. Voltarei mais vezes para ler tudo.
    Um beijo gostoso.
    Astrid Annabelle

    • conscienciaempoesia said,

      Ma Jivan (não consigo chama-la de Astrid), que bom vê-la por aqui!
      Nossa sintonia com os golfinhos é mesmo muito grande!
      Sobre este post… pois é minha amiga, na nave não cabe nada além de nossas consciências… então melhor irmos nos desvinculando de tudo o que pesa rssss….

      Beijos de Luz e apareça!

      Soph

  3. Giovana Galli said,

    Muito bom

  4. William Nascimento said,

    Uau, você realmente fez transceder os limites do fisíco e por um instante senti-me separado da matéria, independente de ainda permanecer, o importante é desapegar. Parabéns.

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